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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Perto de Si, Longe dos Outros

 Indiferença - de longe, o pior dos sentimentos, todos dizem.
 Num debate sobre a mesma eu estava. E como numa reunião de pessoas que sofrem de uma mesma praga, havia um clima sombrio, aterrador. A grande ironia era saber que tudo ali, do palanque montado para os discursos ao sanduiche com suco rançoso servidos ao final da reunião, tinha o propósito, ainda que inútil, de fazer com que cada filho da mãe intitulado vítima se sentisse menos pior do que quando chegou.
 Pois aqui estou eu, sentado no canto de um daqueles grandes bancos de madeira que se vê aos montes nas igrejas, tentando dividir minha atenção entre William, que tentava comover a todos com seu clichê sobre estar apaixonado pela melhor amiga descolada, e uma canção inspiradora.
 Meu propósito ali, naquela maldita tarde chuvosa, era simples: como membro curado de um grupo de apoio, eu deveria dar a eles o meu testemunho de superação. Inicialmente, o objetivo desse testemunho era inspirar outros doentes à cura, no entanto, acaba-se descobrindo no processo que apenas se recebe uma inveja descarada por não mais ocupar um lugar ao lado deles. Sobre a maldita tarde chuvosa, só era maldita por eu haver gastado minhas últimas notas em condução e num lanchinho generoso para não ter que encarar o pós reunião. Para todo o mais, a chuva me mantinha calmo e com humor estável.
 William havia terminado, desceu do palanque com uma expressão inconformada. Fora saudado pelo grupo com um "obrigado William", outras frases peculiares e expressões de pêsames. A verdade era que cada cretino ali presente regozijava-se do sofrimento de William. Não o faziam por serem perversos, mas pela simples ilusão de que sofrer sozinho dói menos. Te quero bem, mas não melhor do que eu - este era o lema por trás da hipocrisia. A despeito de minhas observações, eu havia me tornado um jus desse mantra.
 Meu nome fora chamado, então eu fui. Dessa vez, nem mesmo James LaBrie pode conter minha concentração para cada passo dentro do salão. Me coloquei de pé sobre o palanque, mas antes de me pronunciar observei cada um dos rostos doentes, estes que me esperavam dizer algo sobre o que pudessem se identificar. Alienados. É assim nas igrejas e é assim aqui: escuta-se o que precisa para fugir daquilo contra o qual não se pode lutar. Lastimável, mas absoluta verdade sobre todos os que são fracos. Mas ora, quem sou eu para julgá-los quando há pouco eu estava ali sentado, alimentando expectativas de encontrar uma brecha, tentando reparar erros que não cometi e reconhecer falhas que não pude cometer, os motivos da minha agonia, dentre todos os porquês e por quem sofri. Respirei profundamente.
 "Boa noite", eu disse. Responderam em coro, então o silêncio me deixou prosseguir.
 "Senhores. William..." Olhei para cada um deles. "Nenhum de vocês aqui fora tão rejeitado quanto eu." Um burburinho me fez sentir imprudente, mas mantive a altivez perante alguns furiosos e prossegui. "Rejeitado e tratado indiferentemente por ninguém menos que eu mesmo." Meu orgulho então desapareceu junto às vozes. "Foi há pouco que me reencontrei... A vida tratou de bater forte na minha cara e me perguntar onde eu estava todo esse tempo senão comigo mesmo, vocês compreendem? Durante toda essa nossa discussão infantil sobre rejeição, eu acabei me deixando enganar. Seus choramingos me fizeram acreditar que toda aquela indiferença estava nos outros, mas vocês estavam todos errados." Àquela altura eu já lhes apontava o dedo. "Eu me desperdicei quando a resposta estava bem aqui." Então bati no peito com força - não me lembrava da última vez que havia feito aquilo, mas fazia algum sentido. "Podemos controlar nossas vidas e é isso. Parem de tentar impressionar, ser aceitos ou fazer com que essas pessoas lá fora gostem de vocês. Tudo o que conseguirem na força, por ela será tomado e isso vai doer muito. Sejam um pouco mais gratos consigos mesmos e comecem a dar valor ao que são de verdade, então aquilo que é de vocês será de vocês pelo mérito de quem são. E se em algum momento ousarem duvidar do que são capazes, olhem para tudo o que conquistaram e como conquistaram, pois nada provém dessa farsa. Parem de viver pelos outros, querer ser ou decidir por eles. Deêm prioridade a si mesmos, reencontrem-se e sejam felizes, com ou sem os fulanos que vocês acham que amam. E se amam, não cobrem por isso. Sentimentos não são cheques. Tentem não cometer o erro de esquecerem quem são e não tomarem a frente de suas vidas. E se escolherem perecer, que não sejam em mãos que não as suas."
 Desci do palanque ofegante, banhado em lágrimas desesperadas. Não fui aplaudido. Alguns olhares me fizeram acreditar em alguns momentos que eu não estava curado. Apelei por meus semelhantes não por preoupação, pois não sabia o nome de metade deles. Apelei por conhecer a dor e por causar tão pouca.
 Na maldita tarde chuvosa, eu e eu mesmo voltávamos pra casa.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Apreço Desprezado

 Consideração é dada. Não pode ser pedida, cobrada, forçada ou imposta. É por isso que, quando alguém falha em retribuir consideração, o dano é tão grande.
 Não estão errados aqueles que não retribuem, afinal, nada lhes foi pedido. Por fim, as únicas lições que se podem tirar dessa infame desigualdade são a experiência do erro em prezar por alguém que não merece, e o receio em ceder tal consideração novamente a quem quer que seja.

Texto originalmente postado por mim,
no facebook.

sábado, 1 de junho de 2013

Canseira

 Cansaço. Sinônimo de fadiga. Palavra simples e objetiva. Nossa mais comum desculpa e mais frequente consequência. Da integridade do corpo aos pormenores da alma, estamos todos exaustos.
 Num dado momento nos escondemos, mantemos o silêncio de nossa inquietude, mas alimentamos o cansaço da repressão. Num outro estamos vulneráveis e explícitos, procurando desesperadamente pelo buraco mais próximo onde possamos nos refugiar. Nossos questionamentos são saudáveis, porém cansativos, mas pior seria não questionar e morrer sem descobrir como é excitante ter alguns inimigos.
  Das ilusões sobre o tempo, a pior delas é pensar que ele passa ora ligeiro, ora vagaroso. Sua única verdade é ser constante e não estar à nossa espera. Ele nos ensina que até mesmo as oportunidades se cansam e não mais aparecem, pois sabem como somos inflexíveis. Assim a família se cansa, os amigos desistem, o trabalho nos deixa exaustos e toda forma de relacionamento acaba por nos sufocar.

 Se não fossemos tão tolos e desconfiados, sofreríamos menos e aprenderíamos mais a cada curva. A pessoa legal, que convidava sua paquera para sair todo fim de semana, irá se cansar da espera, das recusas e das desculpas. Aquela outra, da qual se espera uma ligação, desistirá de aguardar ao telefone, e a recíproca será verdadeira.
 Enquanto reclamamos do cansaço de estarmos à toa, muitos prezam pelo descanso que aqui desperdiçamos. Aquele velho ranzinza e intolerante há de se cansar de sua estupidez, assim como os jovens de hoje se cansam de brincar e decidem levar à sério - complicar e destituir - a simplicidade que é a vida. Todos os acertos e erros lançados em função do arrependimento. O outro lado das escolhas fora há muito engolido pelo tempo e jamais será revelado.

 Certo dia nos cansamos de sermos imaturos, noutro recusamos toda a seriedade. Se olharmos em volta, perceberemos sem dificuldades que o mundo se cansou da gente, e hoje nos expulsa daqui. Cansados de esperar pela felicidade, eis que estamos acomodados demais para corrermos até ela.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Caravana

 Era tarde para o almoço quando um questionamento simples e ingênuo - como perguntar as horas à um estranho - tornou-se a conversa de uma vida entre eu e todo aquele infinito. Poderia ter sido condenado à loucura por tornar caótico um momento de tanta inocência, e ainda que segundos fossem horas dentro daquela estranha percepção, existem coisas que nunca mais estarão no mesmo encaixe.
 Na minha precipitada conclusão, a mutação do tempo fora uma das mais belas maravilhas encontrads no universo. Ora, seria um desafio que nenhum miserável não notasse a diferença do ausente, do que não estava mais ali pela manhã, da explosiva consciência de tudo o que é e que um dia também morrerá.

 Bem-vindo às manhãs mágicas da minha caravana. Não estranhe, pode encontrar viajantes que alimentam o hábito de olhar para o horizonte às suas costas e zombar do passado, mas os babacas não se cansam de repetir os mesmos erros e dificilmente aprendem. Ignorância já os tomou como brinquedo. Gosto de apontar dedos podres contra particulares desgostos, portanto acostume-se ou caia fora!
 Olhe bem. O normal de ontem é hoje uma aberração ao olhos modernos e não mais considera o presente; tornou-se uma marca carregada de vergonha. Deveríamos nos orgulhar dos dias passados, mas logo à tardinha alteramos a direção sem perceber, seguimos instintos desconhecidos até descobrirmos as novas formas de prazer e insistimos no teor caótico das próximas horas. Sabemos reconhecer nossa estupidez, mas fomos criados dentro do propósito ridículo da hipocrisia. A estrada da infância nos ensinou que nossos trajes devem manter a elegância durante cada parada e nenhum fio deve ousar desafiar a maldita tradição. Nossas opiniões mais sinceras foram proibidas, trancafiadas numa caixa e enviadas ao futuro próximo - a estação final do engano, descoberta da falsa liberdade - e não importa o nome que se dê a isso, somente quando descobrimos o quanto fomos reclusos é que conseguimos nos expor.
 Reina aqui a liberdade, - exclusiva minha - nessa pequena caravana existe pouco preconceito e nenhuma doença que destrua histórias de amor. Tenho cuidado para que nunca aconteça tragédias, por isso esteja como quiser perto de mim, eu não me importo, o problema é todo seu. Antes de aumentarmos um pouco a velocidade, quero que aprenda a dizer adeus a algumas das suas manias chatas e saiba que, nem sempre velhas paixões se reencontram, algumas existiram apenas na ilusão da sua cabeça.
 A caravana tem seus segredos - isso é meio polêmico, admito - e toma rumos misteriosos. Aprecia doses de honestidade, possui um peculiar prazer no desconhecido, mas prefere aquilo que conhece por inteiro. Na prática, o conhecido acaba sendo monótono demais para os fracos de coração.
 Alguns gostam de perfume, outros de ar podre, é compreensível, mas nem todos merecem compartilhar dos infortúnios das nossas paixões. Logo seremos tragados pelo vento forte, surdados pelo baixo zumbido e veremos cactos engraçados, que mais parecem andarilhos perambulando pelo nosso deserto.
 Não vamos descer hoje, pois quero que vejam tudo daqui. Se o mundo for mesmo acabar, como dizem, estaremos numa festa vermelha diabólica, curtindo álcool e alguma putaria, no mesmo inferno quente onde tanto queriamos morar. Não resista, sua má conduta o arrastará de um jeito ou de outro. Diga a verdade e evite ser envergonhado na frente de todos os seus amiguinhos idiotas mais tarde. Ninguém estará a salvo, e será lindo dançar com nossos próprios demônios na última noite. Entretanto, aqueles que anunciaram o fim certamente não estavam tão doidos como nós, não tinham o nosso humor e nem falavam a nossa lingua. Somos a elite desse deserto, gritamos contra o eco pelo prazer de ouvir nossa própria voz nos chamar de volta. Somos apaixonados demais pelo mundo e egoístas demais para dividí-lo.
 O cair da tarde engana os olhos. Estaremos sentados ou debruçados uns nos outros, testemunhando o abandono do sol enquanto comemos alguma coisa. Ele deve iluminar os perdidos que estão do outro lado enquanto nós continuaremos nossa jornada pelas trevas da noite. Se ao menos aqueles que me criaram pudessem ver o que eu vejo - felizes não estariam, mas com sorte pensariam em mim como algo diferente do que tentaram construir. Opiniões ou apenas títulos, sei que todos somos frágeis à essas drogas.
 O escuro será a parte mais breve. O que você pensa ser uma longa noite não passa de alucinações com globulos iluminados flutuando no céu e um veneno, um maldito sonífero. Chamo essa sensação estranha de "quase morte", pois não morreremos tão fácil, apesar de ser esta a nossa única certeza.
 O horizonte irá misturar seus tons azuis ao brilho ascendente da manhã pouco antes do sol surgir de novo. Discretamente, alguns milhões de raios estarão sobre as nossas cabeças. A caravana vai estar parada, vamos nos empuleirar no teto e tentar algum lugar mais alto. Sabe amigos, eu não queria ver o esplendor da nova era, eu queria ser visto por ela. Acho que nenhum intrometido terá a ousadia de interromper nosso sagrado momento junto ao recomeço. Haverá um novo céu sobre nós e um mundo brilhante a ser explorado. Retornaremos aos nossos postos, e logo de volta às entranhas de nossa estrada.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

As Formigas

 Observando algumas formigas no jardim aqui de casa, percebi que todas seguiam uma mesma rota carregando folhas maiores que elas mesmas, mas, seguiam firme em direção ao formigueiro, que descobri estar poucos passos adiante, o que para elas deveria representar uma grande viagem.
 De repente percebo que uma delas está com uma folha exageradamente grande nas costas, deveria ser pelo menos vinte vezes maior que ela, e seu esforço era notado a distância. Fiquei ali imaginando o orgulho dessa formiga presunçosa, carregando aquela folha gigantesca e como ela deveria estar ansiosa em mostrar a formiga rainha como ela era forte, como ela era capaz, quem sabe até ganharia uma promoção.
 Enquanto a fila de formigas seguia em direção ao formigueiro, essa formiga girava em volta de si mesma, sem conseguir sair do lugar, seu esforço era tão grande que mal avançava um passo, voltava dois para trás; estava tão cega, tao entretida na sua luta de carregar aquele mundão nas costas que nem percebeu que todas as formigas largaram as folhas para escapar do pé de um menino que vinha correndo atrás de uma bola. As formigas escaparam por pouco, mas nossa amiguinha morreu esmagada, agarrada à sua folha.


 Assim como a formiga, nós seres humanos, inteligentes e sensíveis, de vez em quando queremos carregar mais coisas em nossas costas que podemos suportar, os problemas dos outros, as dores do mundo e a ganância de querer sempre mais, de ser mais e melhor e quando acordamos para a realidade estamos esmagados pelo peso de nossa insensatez. Cuide mais de você, o dia passa, as pessoas passam, o tempo passa, mas você fica, você será a sua eterna companhia, todos podem até fugir de você, mas você não pode fugir desse encontro com você mesmo, com a sua paz interior, com a sua felicidade.
 Por amor a você, carregue apenas a sua mala, e de preferência, o mais vazia possível.

 Eu acredito em você!
Paulo Roberto Gaefke

sábado, 22 de outubro de 2011

Agridoce Nostalgia

 O céu, na última semana, permaneceu cinza e muito nostálgico, me lembrava do tempo em que adorava sair de casa no arrepiante frio para jogar RPG e me divertir com os amigos. Não só por essa, mas também por outras lembranças que surgiram; e aquelas que não surgiram foram trazidas até mim pessoalmente. Talvez um efeito cego do dia das crianças em mim, ou apenas minha mera impressão de que o mundo ficou pequeno demais e que já não cabem eu e minhas memórias num mesmo espaço.
 Maldita nostalgia! Essas recordações de matérias e vidas ligadas à minha - ao tempo em que permanecem desprendidas de mim - estão perdidas no olho de um furacão sublime, que guarda em toda a sua extensão uma complexidade inexplicável de imagens e déjà vus sinistros; sons e aromas que parecem trazer de volta as fortes cinzas de algo distante; e assim vão e voltam, por entre umas e outras que se perderam para sempre, que em vão vieram; enquanto outras volta e meia passam por aqui, só para me fazer recordar.
 Descobri que a maioria das coisas mudam drasticamente, e ainda que o tempo se arraste ao longo dos anos, só é possível perceber tal modificação quando ela já está sumindo no horizonte. Não me arrependo de nada que fiz, mas assim como todos, tenho a sensação de que foi pouco e que poderia ter sido melhor.
 Enquanto algumas pessoas cresceram, outras diminuiram (em muitos aspectos). Conhecidos de longa data tornaram-se nada mais que rostos familiares dos quais os nomes eu não me lembro; e certa observação veio a ser muito importante, pois me ajudou a perceber aqueles que nunca esqueci.
 Quanto à memória, ela funciona bem; ainda que esteja fraca para reconhecer detalhes minuciosos do passado. Logo, quando tais detalhes resolvem bater de novo à porta é que percebe-se o quanto fora deixado para trás. Tudo aquilo que há tempos possuia um valor imensurável, passou a ocupar hoje um canto frio e insignificante das minhas experiências. Muitos tolos pensam na possibilidade de reencontrar - e logo retomar - para tentar reviver; e algumas vezes reconciliar. Entretanto, não interessa qual a repetição, reforço ou retrocesso tentem usar, não se pode recriar o passado, modificar memórias ou enganar a história - é como negar sua própria imagem no espelho; um engano contra si mesmo.
 A solução menos dolorosa é aceitar que sentir saudades é saudável, e que talvez seja esta a única garantia de que algo foi bom o suficiente para gravar na memória os melhores momentos. Sua intensidade marca pontos na imensa linha que liga nossas vidas e dão sentido às nossas distintas e, por vezes, semelhantes histórias. Teremos saudades hoje, amanhã e depois, pois é com a alegria destes momentos que se desenha a vida - e ainda que infortúnios apareçam, sempre valerá a pena rir deles no futuro.

sábado, 1 de outubro de 2011

Um mundo sem religião...

"... é um mundo melhor. Um mundo onde somos responsáveis pelas nossas ações, onde podemos ser gentis com o próximo, porque queremos ou porque é correto, em vez de nos sentirmos ameaçados pelo castigo divino. [...] É bem melhor ser ensinado a pensar de forma crítica e poder tomar suas próprias decisões, do que ter as noções de um outro alguém jogadas nas suas costas." Oromis, O Sábio Pesaroso

Eldest, 514

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Nunca é o Bastante

 Sorrateiro, deselegante, vai além de uma regra, quase um mandamento. E quem está satisfeito, afinal, quando nenhuma definição dada a este pequeno trapo será consideravelmente aceitável, ou adequada aos gostos de todos os fregueses? Esta não é lei da selva, do homem ou de Deus; ela passa longe de frases prontas vistas em filmes e lidas no jornal de domingo. As parábolas cristãs e os versículos bíblicos não se destacam diante de tal insatisfação, onde nem mesmo Murphy e sua lady podem interferir.
 Confuso? Olhe para si mesmo e tente enxergar as tonalidades fortes do sangue que te pagam e da sua demanda por ele. Depois de muito se enojar, respire e entenda que é natural, tão normal quanto uma fome canibal. E não é o bastante; nunca foi e nunca será. Se aplica em mim, à você e ao outro; em nós, vós e todos. Integral ou abreviado, sem preconceitos quanto a condição, sofrimento ou pressão.
Nunca é o bastante.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Preço e Valor

"Não, eu não irei vender meu PlayStation 2 só porque tenho um Xbox 360 em pleno funcionamento!"

 Ainda que tal possibilidade tenha sido cogitada, foi preciso um esbarrão do tempo para perceber a diferença tecnológica e - não menos importante - sentimental entre eles. Parece assunto de nerd, mas responda-me então: quanto custa a cadeira na qual você está sentado? Caso não esteja sentado, quanto vale o esforço de ler este trapo de pé, ou deitado, ou sejá lá como você estiver? Possuimos respostas óbvias e até mesmo bastante precisas para muitas perguntas, enquanto para outras, simplesmente não sabemos o que responder e adotamos nosso peculiar silêncio da ignorância. A mensagem é objetiva, portanto não há muito o que render diante de observações tão simples e ao mesmo tempo tão complexas. Particularmente, me surpreendi quando reconheci o valor que pouca coisa pode ter e o preço de certos valores inestimáveis. Me senti tolo por não haver percebido tais maravilhas muito antes.
 A queda livre deste pensamento pousou na minha cabeça nas primeiras aulas de economia (na faculdade) e rasgou uma cortina de muitos conceitos errôneos que vinha sustentando acerca dos gostos e opiniões de pessoas próximas. É claro que muitos dos meus preconceitos não foram (e dificilmente serão) quebrados por esta simples matéria, mas é certo que estou aprendendo a refletir melhor sobre tudo que me cerca e sobre o propósito de cada coisa. Estes novos conceitos de comportamento não estão ligados a divindades ou a outras formas sobrenaturais e metafísicas; este propósito mergulha além das fronteiras do meu e do seu pensamento, e uma vez compreendido, será difícil erradicá-lo.

 Desde pirralho sempre sonhei em usar tênis All Star. Por motivos que nunca adentraram muito bem na minha cabeça, eu não podia usar o maldito calçado, e eram tantos os empecilhos que quando finalmente tomei meu primeiro All Star em mãos, não pude acreditar. Parecia surreal, além da sensação tosca de cuidado, como com um item emprestado, como se os tênis fossem fugir do meu domínio. Se algum diabo ousasse estrear meus novíssimos pisantes, então, eu logo partia para a arrogância. A cada manhã e sempre que necessário, era primordial que cada centímetro dos cadarços estivessem bem alinhados e limpos antes de serem calçados ou guardados. Este era eu, insuportávelmente munido de belos tênis All Star. Ontem, porém, olhei para o meu atual modelo surrado e desalinhado e tive uma certa pena dele; remorço acompanhado de nostálgicas lembranças de um dia ter jurado tanta fidelidade a estes tênis. Um pertinente vácuo atravessou meu cérebro até ser preenchido pela minha resposta: ainda que, de fato, exista valor, este agora é bem menor...
 Tantas reflexões sobre algo tão simples me fizeram crer, depois de um certo autoperdão, que não vale a pena julgar valores passados, modificar os presentes e nem mesmo premeditar os futuros. Estes valores são tão íntimos que nem mesmo aquele que o detém e afirma sua existência pode calcular sua imensidão. E não importa seu preço, os sacrifícios feitos, as trocas necessárias ou o prazo estipulado; existirá um valor pessoal que estará sempre acima de qualquer um destes pobres itens utilitários.
 Dessa forma, o que vale pra mim pode não valer para você, ou este mesmo valor pode simplesmente não ser tão alto, ou tão insignificante ou ainda menos tão equivalente ao que vale para mim. Pode ser ele humano, pessoal ou até mesmo um valor material... quem somos nós para julgar o valor das coisas?
 Tão relativo, denso, poderoso e oculto pode vir a ser; chegando despercebido através de simples realizações ou choques inesperados. Portanto, não meça esforços para obter o que vale sua satisfação; dê e ela o valor merecido e respeite-o quando precisar ir embora, para que outros valores possam entrar.

terça-feira, 26 de julho de 2011

A Alienação Parou...

... para observar o Bom Senso. Por cima o encarou, aguardou um momento e, num ato de total desrespeito, pisou e o arrastou contra a sola gasta dos seus sapatos. Insatisfeita, a Alienação derramou sobre o Bom Senso sua saliva ácida e podre, infectada de clichês que nunca irão parar de se repetir. Sentindo o cheiro queimado de suas entranhas, o Bom Senso encarou a Alienação, tendo certa dificuldade, mas também total consciência do que estava fazendo e disse:
"Mate-me logo, pois eu me recuso a desfrutar do mesmo chão em que tu pisas."

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Fardo

 Esta pesado; sufocante. Depois de um tempo ele parece fazer parte de você, e as pragas que antes você rogava já não proporcionam o mesmo prazer de antes, pois ele continua ali.
 Seu tamanho é desproporcional. Fica cada vez mais difícil encontrar uma forma confortável de mantê-lo, ou de queimá-lo, se ao menos fosse possível. As forças do seu pensamento serão nada menos que um esforço repetitivo e quase vão até que se consiga raciocinar em baixo de tudo isso. E o que o prende já não te surpreende; está unido à sua carne de forma tão firme e ainda assim tão dolorosa, que quando o peso sequer alivia é impossível sentir. Talvez você seja sim, um verme mal agradecido, mas não se culpe; com certeza você não quer alimentar tudo isso com doses amargas de culpa.
 Busque então seu salvador. Não, tente ajeitar seus ombros cansados e abrir sua visão para algo maior, além do que seu fardo permite que você veja. "Salvação" - palavra forte, tão imponente quanto o peso que carrega, talvez ainda maior se somada com a necessidade de tê-la das piores formas.

 Salve-se então, se é tudo que quer. Ou já não faz diferença? É difícil sentir-se como se toda a tempestade estivesse apenas começando; sua mente atrofiada percebe que outras delas virão e que talvez você esteja mais preparado para as próximas fases da tormenta. Tome cuidado, pois correr seus olhos através de tantas luzes pode fazer com que piore; e o que faria você se não pudesse mais suportar?
 Ah! Quão atrativas se tornam aquelas altas janelas e tais pontiagudos cintilantes. Será este o fim. É o que pensa? Ora, não seja tolo em achar que o fim de uma vida leva consigo o cessar de todas as suas dores; e ainda que eu esteja errado e que a morte de fato as leve, não poderá evitar a dor que ficará, há menos que seja este o propósito deste fim. Suicidas não morrem com seus fardos, e cometem tal loucura por estarem cientes de que todo o peso cairá por terra minutos antes de sua própria despedida.

 Agora pare por um momento e olhe para mim. Quão estupido eu sou, não? Mas tente apenas imaginar por alguns segundos. Levo numa caixa, repleta de compartimentos secretos, as exatas lacunas que separam minhas abstratas verdades das mentiras que, de alguma forma, se tornaram bastante reais para mim. Você jamais conseguirá ver adentro, ainda que tente uma centena de vezes e mais cem. Minhas correntes parecem banhadas por vinho tinto, mas um inconfundível odor não me deixa negar meu sangue amaldiçoado por tantas punições, originadas de todo o meu perfeccionismo. Inevitável e puramente existente; está aqui, bem acima de mim - e durante horas posso garantir que não a sinto pesar tanto. Mas nem só de segredos se alimenta esta maldita carga, assim como não são só minhas costas que doem a cada repuxo. Meus pés se cansaram de andar em círculos como um cão atrás do próprio rabo; minhas mãos seguram, firmes e sólidas, as mesmas correntes que cortam meu peito com seu metal gélido; minha cabeça permanece erguida, enquanto suor escorre em cada fio de cabelo e lágrimas salgam minha boca; meus olhos estão atentos, rancorosos e obcecados. Profundo, meu coração pulsa violentamente, sendo nele mesmo aonde mais pesa, pois carrega tudo aquilo pelo qual não possuo controle, apenas apreço.

 Voltado para você, é fácil perceber que se identificou de alguma forma; se não, presumo que nunca lutou por nada que lhe valesse seu sangue, ou como dito: o fardo à carregar. A verdade irreversível é que possuímos, em algum canto obscuro da casa de nossas vidas, um cômodo repleto de fardos e mais fardos. Você se livrou de maioria deles, ainda que durante alguns dias eles estejam bem lá, acima das suas costas; outros ficaram tão esquecidos que nem mesmo aquilo que ele lhe trouxe de bom é recordado por você. Independente disso, pensar em tais fardos é nada mais que um novo junto à coleção. Dentre todos eles, tenha ciência que, aquele que pesa em suas costas é unicamente o que você escolheu carregar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Sujeira

 Mãe e filha se mudaram para os altos andares de um condomínio de luxo. Graças a generosa pensão do ex-marido rico, a mãe levava a vida confortavelmente e sem demais preocupações; e por muitas vezes, sua mordomia chegava a níveis espantosos. Sua filha, muito bem criada e educada, sempre fora uma garota perspicaz e observadora; ao contrário da mãe, não se dava aos prazeres de montar na pensão de seu pai para satisfazer suas vontades particulares, mas também tinha uma vida bastante abundante.
 Todos os dias a filha acordava bem cedo, passava alguns minutos cuidando de si mesma e logo depois se dirigia à cozinha para preparar o café da manhã. Já a rotina da mãe permanecia estável. Se levantava preguiçosamente e logo corria para a cozinha para matar sua fome. Enquanto sua filha degustava cada item posto à mesa, a mãe apenas servia-lhe uma xícara de café quente, e colocava-se em frente a uma grandiosa janela de vidro que se estendia poderosamente do chão ao teto.

 Uma expressão de nojo e desgosto formava-se no rosto da mãe enquanto observava o prédio menor, em frente a janela. Entre um gole e outro de café, comentava com sua filha sobre a enorme sujeira no prédio vizinho. Quanta imundice! Paredes sujas, muros mal conservados, piscinas em péssimo estado... que horror. Até as pessoas lá embaixo são sujas. Com apenas um resmungo, a filha concordava com cada argumento usado pela mãe, e assim manteve-se durante semanas, enquanto a sujeira no prédio ao lado acumulava-se ainda mais.
 Certo dia, depois de todos os preparativos matinais, a mãe colocou-se de volta a janela para observar seus vizinhos podres, mas logo lhe bateu aos olhos uma surpresa! O prédio vizinho estava limpo, os muros restaurados, as piscinas brilhavam cristalinas e as pessoas estavam impecáveis em seus trajes casuais. Espantada, a mãe reinvindicou. Mas o que houve com essas pessoas? Elas parecem mais limpas que nós... Sua filha, despreocupada, lhe respondeu. Elas sempre estiveram mais limpas que nós, mãe; eu apenas limpei nossa janela hoje de manhã.

Este texto é uma adaptação de Janela Suja, de Alexandre Fernandes.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Uni Versos

 No momento meus músculos doem e eu quero dormir para não ter que acordar cedo amanhã, mas uma parte fundamental dessa estranha rotina não está completa. Por isso a postagem será breve, algo simples para expressar algo único, - e um tanto quanto simples.
 Mergulhar em infinitas possibilidades é ter o prazer em se afogar e descobrir que o mundo, que dias antes era bastante grande na sua cabeça, e incondicionalmente enorme e ao mesmo tempo compacto demais. Com as distâncias se encurtando, tudo está ficando tão aperfeiçoado, de um modo generalizado e ainda assim particular. E dentro disso, é abrasivo ser parte integrante e saber que você não gira apenas em torno do seu mundo de paredes fixas, mas que muitos outros mundos giram em torno de tudo o que você faz.
 Logo é possível estar sozinho sem nunca estar solitário; saber com quem contar e o que contar. Diante do tempo e da temperatura; imaginar, viajar adentro de infinitas idéias; criando, planejando e estudando formas ousadas de se aproximar do surreal e tocá-lo com a alma.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Certezas

 Um dia me ensinaram a construir meus sonhos. Disseram-me que a areia seria perigosa, levada pelo vento impetuoso, abandonando minhas bases e me fazendo desmoronar. Em contrapartida, haviam rochas firmes e pesadas das quais me garantiram que, se eu construísse meus sonhos em cima delas, eles jamais desabariam.
 Pensando em decisões e afins, acho que seja difícil escolher entre certo e duvidoso, quando nada parece sólido demais. De parábolas e metáforas se compõem ilusões; e pensando em si mesmo como um ser humano e limitado, é possível crer que não somos sementes e que muitas vezes nossa colheita pode nos reservar surpresas bem além do que plantamos, seja bom ou ruim.
 Se um livro fosse escrito para responder todas as questões da humanidade, tudo seria bem mais fácil. Mas penso em quem seria bravo o suficiente para desafiar a vida e todas os seus fortúnios e infortúnios. Afinal, é fácil confiar em qualquer álibi quando se está fraco. Chega um momento em que a fragilidade mostra-se mais perigosa que um assassino com nada a perder, ou simplesmente te transforma em um.
 São, afirmo que não estou falando de religiões ou crenças; não me refiro a dogmas, doutrinas, seitas ou rituais. As curiosidades sobre o mundo que explodem na minha cabeça nascem da própria carne humana, a mesma carne que morde em frenesi e assopra sem pudor. Tua carne, a minha carne.
 De fato, não são os controladores em si, mas os fantoches que me assombram. Uma vez que se rebelam contra os criadores, formam exércitos repletos de independência e vida própria, todos dotados de insanas oportunidades, dispostos a realizar o improvável pela chance de se tornar reconhecível. Como o pobre Pinochio ansiando tornar-se um menino de verdade. E por que razões? Se a dor certamente não lhe faz nenhuma falta, assim como qualquer sentimento dentro do seu coração de madeira que nunca bate.
 Então, onde estão aninhados os seus sonhos e onde está sua garantia nesta terra manchada de sangue? Se todas as suas apostas falharem e suas dívidas não puderem ser pagas, você aceitaria morrer por tudo que julga certo e por todos aqueles que você julgou culpado? Se existe mesmo uma razão para provar mão e contra-mão, apontando dois caminhos únicos e distintos, onde estão as centenas de chances do mundo? E onde foi parar o seu livre arbítrio, se em todo canto gritam: "Não há escolha! Não há saída!"
 Se pudessem convencer você de que tudo está errado, que na verdade seus olhos enxergam a vida de ponta cabeça, que as nuvens carregadas são o limite do céu e que fatalmente o inferno existe e não há vida em nenhum outro lugar a não ser bem aqui: no metro quadrado que abriga você e todas as escolhas que você tomou para se tornar o que é hoje. Na conclusão dos meus pensamentos acerca de tantas perguntas, a indesejável morte continua sendo a única certeza, enquanto o resto permanece probabilidade, quando certamente o temido se jamais existiu.

sábado, 15 de janeiro de 2011

♪♫ Never Ending Story

Within Temptation - Never Ending Story (Tradução e Vídeo)

Exércitos conquistaram e caíram no fim.
Reinos ascenderam, depois foram enterrados na areia.
A terra é nossa mãe - ela dá e ela tira.
Ela nos põe para dormir e na sua luz despertaremos.
Seremos todos esquecidos, não há fama infinita...
mas tudo que nós fazemos, nunca é em vão.

Nós somos parte de uma história, parte de um conto.
Estamos todos nesta viagem. Ninguém vai ficar!
Aonde está indo? Qual é o caminho?

Florestas e desertos; rios, mares azuis.
Montanhas e vales, nada aqui permanece.
Enquanto pensamos e testemunhamos, somos parte da cena.
Esta história sem fim, onde conduzirá?
A terra é nossa mãe - ela dá e ela tira.
Ela nos põe para dormir e na sua luz despertaremos.

Nós somos parte de uma história, parte de um conto.
Às vezes bonito... às vezes insano.
Ninguém se lembra como começou...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Entrelinhas

 Certo dia sonhei que subia no banco de uma praça e gritava todos os meus segredos em público. Quanto mais eu gritava, menor eu ficava e mais baixa saia a minha voz, como se o dito som as fizessem crescer. As pessoas tomaram proporções gigantescas; logo me senti perdido - meio engolido pelas minhas próprias confissões e pelas coisas banais que disse, mas que o mundo ficaria bem melhor não sabendo.


 Então quem sou eu? E quem é você?
 Está além dos seus sonhos, além do que a sua mente é capaz compreender. Poderia você controlar o imenso pandemônio dos seus segredos, ou nega que todos nós tenhamos três vidas em potencial? Descuide-se de sua vida pública e sua vida privada será levada aos extremos de onde nunca deveria ter chegado. A versão contrária dessa teoria vai transformar sua vida pública numa grande vergonha, ou você apenas saíra do anônimato, o que não seria muito discreto mas o que muitos desejam. Entretanto, sua vida secreta continuará sendo o cômodo o qual apenas você tem a chave; e nunca a perde. Resistente a tudo, você pode mudá-lo e reformá-lo infinitas vezes, direcioná-lo para o bem ou para o mau; garantindo que ele jamais poderá te enganar, pois é seu - talvez a única coisa que possa ser chamada de sua.


 O mundo é o seu mundo afetando o meu mundo, e vice-versa - este é o nosso mundo. Ele não espera, não cessa e não volta para pegar o que ficou lá atrás. Alguns o chamariam de cruel; eu o chamo de justo. Que diferença você faria se a vida de outra pessoa não fosse atingida pelas suas escolhas? Querendo ou não, mantemos contato indireto e influênciamos tudo à nossa volta, por isso nunca estamos sozinhos.
 O que há por trás dos seus trajes, sejam eles pretos ou coloridos? Qual é o sentido das suas formas, da textura do seu rosto, do seu olhar? O que eles guardam? Conte-me a moral de todos os livros que leu, filmes que viu e coisas que fez. Suas marcas, onde estão? Suas lágrimas, para que servem? Pode se dizer integro e verdadeiro e cosegue me provar isso? Será que já descobriu o meu disfarce? Já reparou bem na pessoas que diz que ama? Quantas milhas a mais você precisa correr para saber o que realmente importa? Já foi pego falando sozinho? Então... com quem conversava? Existe alguém dentro de você que gosta de se comunicar? Estou curioso para saber qual é a fantasia que esconde a sua índole, e a verdade em você.
 Perceba que todas as perguntas que escrevi - em aproximadamente três minutos - possuem respostas que não saberiamos dar, ou que apenas não nos sentiriamos à vontade em responder, pois não precisamos. Pensei em escrever algo desse gênero quando finalmente percebi que não podemos corresponder a tudo que queremos ou ao que exigem de nós. Nossos esforços são pouco úteis e quase vãos diante de máquinas que não param - voltaremos então à questão do mundo. O que não fazemos por nós mesmos será feito por outro e para si próprio. Não estou pregando ideais egoístas, apenas um fútil contrasenso.
 Somos um verbo único que jamais poderemos conjulgar.

“Não existem segredos na vida, apenas verdades escondidas, que ficam sob a superfície.”
Dexter Morgan

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sobre Casualidades

 Se levamos uma vida satisfatória,
por que não podemos idealizar nossa perfeição?

 A pergunta é simples de ser respondida, mas a mesma resposta simples gera uma série de controversias e acaba criando um universo de novas perguntas, como: O que seria melhor? Procurar o que se quer ou esperar que o inesperado nos encontre? Constantemente o casual e o proposital se chocam. Em sua eventual maioria, aceitar as mudanças torna-se bem mais fácil que tentar mudar os fatos. Mas qual é afinal o resultado de uma decisão arriscada? Não seria isso agir sem perspectiva, como se nos entregassemos nas mãos do Sr. Destino?
 Difícil explicar. O casual só é compreendido como experiência.

 Não há uma data ou uma hora certa para acontecer; simplesmente acontece. Situações que não se combinam e que são impossíveis de prever. Suas causas não se justificam aos fins ou aos meios, muito menos aos seus caminhos marcados. Ocorre como se seus passos fossem guiados numa profunda escuridão, lentamente, até que subitamente esbarrasse em outros pés perdidos. A casa das suas reações entrará em vigor e logo você poderá fugir das surpresas, ou enfrentá-las com um sorriso forçado. Sua farsa pode ser convertida em atos maiores e verdadeiros, ou somente tristeza quando não há harmonia.
 Não saber é um óbvio mistério. Descobrir é uma iminente aventura. Olhar sempre para onde está seguindo pode não ser a certeza do plano perfeito. Talvez você não precise iluminar o caminho, pois sua confiança o enganará, assim você não se arrependerá do que pensou que se arrependeria. Que viagem...
 Nossos planos são arquitetados na forma sólida dos nossos pensamentos. Nossa força de vontade, ainda que baixa, existe; e nos motiva a prosseguir e alcançar o objetivo. As ferramentas e o processo que usamos para acertar os ponteiros e caminhar na direção de nossos sonhos são diversos e ilimitados. Nossas perspectivas diante de um mundo de opções podem mudar, ou não, ou apenas sofrer pequenas adaptações. Normalmente buscamos a persistência e costumamos declarar que a esperança é a última que morre. Mesmo caindo e sangrando estamos nos levantando e limpando nossa honra contra os que cospem. Enfrentamos uma árdua caminhada por alcances infinitos, mal esperamos que simples eventos poderão mudar para sempre nossa percepção; e porque não, todos as nossas perfeitas idealizações.
 Uma tremenda confusão se forma na minha cabeça quando o assunto é o presente e o futuro. Particularmente, detesto comentários conservadores sobre a visão ideal do ser-humano pelo mundo. Por outro lado admito não morrer de amores pela opinião liberal. Não, eu não estou em cima do muro. Defendo a idéia de regras que assegurem o bom dia seguinte, mas que ninguém deixe de viver por isso.

 Ninguém, por mais velho que seja, possui um controle absoluto de sua vida. Não sabemos se amanhã estaremos na mesma condição. Queremos sempre mais pois é da nossa natureza sermos competitivos. Mas qual é a razão das competições se nada é assegurado? Sua vitória não ficará de pé por muito tempo. Aonde você esconderá sua vergonha?
 Não será necessário se preocupar, pois talvez seu fracasso também desapareça. Acredito em Deus e no metafísico, mas considero tola a atitude de largar tudo contra a vontade da vida. Nossa capacidade nos permite alcançar, por mais que o resultado não seja garantido por provas inquestionáveis.
 Concluindo: nossos planos são constantemente afetados por algo que não está dentro do previsto. Sua rota poderá mudar, assim como o seu ponto de chegada e partida. Um dia de cada vez, mantenha-se calmo e concentre-se naquilo que existe e se move diante dos seus sentidos. Acima de qualquer suspeita, não se assuste se uma inesperada situação pegá-lo de surpresa e jamais tenha medo de arriscar sua conduta quando sua alma grita por algo necessário.

 Guarde para si mesmo a certeza da maior casualidade humana - a dívida de todos os homens - a morte.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Mau e Você

 Ninguém quer fazê-lo, suas causas não são passíveis de entendimento, suas consequências são sempre piores que a própria maldade feita, o mundo discorda mas ele existe. O mau, o contrário de bom e do bem intencionado, parceiro fiél da tragédia e do infortúnio, o mau temido e não aceito, o mau que sempre será mau e jamais deixará de sê-lo, na extrema consciência, por todos os caminhos que vagar.
 Ele não precisa de convite, mas sua sutileza em agir não o deixa ser penetra. Sua face é quase sempre desprezivel, ou no contraditório, um vigarista, aparentemente justiceiro, sanguinário mas no fundo misericordioso, tão complexo que o próprio bem o acaba deixando passar. Por pouco tempo ou tempo nenhum, talvez a eternidade seja imprecisa ou desnescessária demais para suas tarefas, o fim do mau será sempre esperado, e seu retorno o mais temido enquanto tudo correr bem.
 O gosto do seu beijo é doce mas amargo no final. Existe uma especialidade de suas ações que se concentram em partes obscuras que suas próprias vítimas desconhecem. O efeito deste veneno desce sem pressa, escorrega pelas paredes da garganta, no sentido contrário da vontade involuntária que sempre te faz chorar; nem ao centro mas falsamenete ao lado esquerdo, adentro da mentira que homens insitem em acreditar, pois sabem que a dúvida gritaria chamando-os de loucos e insanos.
 A resistência é fútil, ninguém deseja e alguns debocham de sua hora ruim. Sagaz, deixa que tudo siga como deve normalmente, não há pressa em ambos os lados, apenas um estranho frio que consome a espinha, encara a espinha fraca a ser violentamente devorada. Tentar desvendar estes planos é algo perigoso, pode livrar alguém ou todos, por tempo determinado ou não, estando cientes de que para morrer basta estar vivo. Quando há batalha o corpo sua, a vitória mal ganha segue engasgada em sua revanche, ela gera uma guerra maior - a mais poderosa e devastadora de todas.
 Neste labirinto de seres desconhecidos, escolher se torna cansativo, cada passo pesa mais e maior fica o caminho até a luz. A porta é única, e não há entrada quando se está inserido; não há razão para gritar quando o sangue estanca, inútil será derramar lágrimas em solo tão escasso. É na terra do mau que o céu é sempre nublado mas nunca chove, onde a ventania esconde a verdade por trás de longos arbustos secos. Essa viagem na minha mente poderá prendê-la à sua, e assim estaremos condenados por nosso pecado coletivo, esperaremos pelo áspero perdão, orando para que encontre um caminho seguro até nós.
 Cicatrizes ficarão, marcas na mente irão ser convertidas em pesadelos constantes, se existe um esconderijo longe de tanta loucura, encontre-o em meio a civilização e me avise. Toda a sua paciência em esperar e deixar que tudo desabe têm sido a peça chave da derrota, sua cabeça estará agora vazia e nada invadirá durante alguns dias, a recuperação chegará e seus comprimidos da realidade logo farão efeito. A visão embaçada será apenas um colateral dos seus drinques malditos, não haverá o que temer na causa nula, repousará na mesma companhia em seu quarto, acordará suavemente, flutuará num susto psicológico que tardará em passar. No fim nada ficará em branco, e tudo o que se foi, certamente voltará.

 Afinal, o mau é estranho, doentio, sinistro e eficaz. O mau que o ataca e lhe joga contra a parede, lhe aponta com um cajado da justiça cega, sendo o mesmo que o fez se pôr de pé mais uma vez. O mesmo mau que o derrubou o fez admitir e arrepender-se dos erros, o mau que não é mau, mas procura ser justo diante das circunstâncias.
 O mau nescessário, o instinto, o impulso que empurra contra a porta da esperança. Nada é corretamente perfeito, assim como a vida sem o mau, que torna-se monotona e imune aos desafios. Assim ele segue como estranho amigo, passando despercebido, mantendo sigilo de seu vicioso ciclo de lições e punições.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Enemy of Mine

 "Por um lado, ter um inimigo é muito ruim, perturba nossa paz mental e destrói algumas de nossas coisas boas. Mas, se vermos de outro ângulo, somente um inimigo nos dá a oportunidade de exercer a paciência e ninguém mais do que ele nos concede a oportunidade para a tolerância. Já que não conhecemos a maioria dos cinco bilhões de seres humanos desta terra, a maioria das pessoas também não nos dá a oportunidade de exercer a tolerância ou a paciência. Somente essas pessoas que nós conhecemos, e que nos criam problemas e preocupações, é que realmente nos dão uma boa chance de praticar a tolerância e a paciência."

(Dalai Lama)