terça-feira, 21 de outubro de 2014

Sobre Cães e (algumas) Pessoas

Algumas pessoas são como cães,
correndo até você ou fugindo.
Puro instinto.
Amam e odeiam sem ponderar limítes.
Seu sentimento puro é limítrofe.
Sem motivação aparente,
irão ladrar e morder,
choramingar e lamber.
Não respeitam, mas temem.
Desconsideram correspondência.
Insistem.

Algumas pessoas são como cães.
Vão implorar por atenção,
mas cansar-se da bajulação.
Podem ser dóceis, agressivos ou inconstantes.
Escolher um dono apenas ou ser de qualquer um.
Mas resistindo ou cedendo,
serão sempre cães:
Expressão de pena marcante.
Humor variável; não obstante.
Bom senso distante...

Algumas pessoas são como cães
e como tal tratados - ou mal tratados.
Serão alimentados,
mas também ignorados.
Por vezes surrados e abandonados.
Querem porque querem.
Se têm não querem mais.
Impedem que outros tenham.
Usados através das próprias vontades,
morrem como cães.
Amados, porém esgotados,
logo substituídos.

Algumas pessoas são como cães,
e por mais que você argumente,
elas não vão entender.
E ainda que você espere,
elas nada vão dizer.
Não negociam pois são cães,
e tal comparação não visa ofendê-los.
Cães de verdade são apenas animais.
Pessoas como cães,
ainda que conscientes,
permanecem irracionais.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Perto de Si, Longe dos Outros

 Indiferença - de longe, o pior dos sentimentos, todos dizem.
 Num debate sobre a mesma eu estava. E como numa reunião de pessoas que sofrem de uma mesma praga, havia um clima sombrio, aterrador. A grande ironia era saber que tudo ali, do palanque montado para os discursos ao sanduiche com suco rançoso servidos ao final da reunião, tinha o propósito, ainda que inútil, de fazer com que cada filho da mãe intitulado vítima se sentisse menos pior do que quando chegou.
 Pois aqui estou eu, sentado no canto de um daqueles grandes bancos de madeira que se vê aos montes nas igrejas, tentando dividir minha atenção entre William, que tentava comover a todos com seu clichê sobre estar apaixonado pela melhor amiga descolada, e uma canção inspiradora.
 Meu propósito ali, naquela maldita tarde chuvosa, era simples: como membro curado de um grupo de apoio, eu deveria dar a eles o meu testemunho de superação. Inicialmente, o objetivo desse testemunho era inspirar outros doentes à cura, no entanto, acaba-se descobrindo no processo que apenas se recebe uma inveja descarada por não mais ocupar um lugar ao lado deles. Sobre a maldita tarde chuvosa, só era maldita por eu haver gastado minhas últimas notas em condução e num lanchinho generoso para não ter que encarar o pós reunião. Para todo o mais, a chuva me mantinha calmo e com humor estável.
 William havia terminado, desceu do palanque com uma expressão inconformada. Fora saudado pelo grupo com um "obrigado William", outras frases peculiares e expressões de pêsames. A verdade era que cada cretino ali presente regozijava-se do sofrimento de William. Não o faziam por serem perversos, mas pela simples ilusão de que sofrer sozinho dói menos. Te quero bem, mas não melhor do que eu - este era o lema por trás da hipocrisia. A despeito de minhas observações, eu havia me tornado um jus desse mantra.
 Meu nome fora chamado, então eu fui. Dessa vez, nem mesmo James LaBrie pode conter minha concentração para cada passo dentro do salão. Me coloquei de pé sobre o palanque, mas antes de me pronunciar observei cada um dos rostos doentes, estes que me esperavam dizer algo sobre o que pudessem se identificar. Alienados. É assim nas igrejas e é assim aqui: escuta-se o que precisa para fugir daquilo contra o qual não se pode lutar. Lastimável, mas absoluta verdade sobre todos os que são fracos. Mas ora, quem sou eu para julgá-los quando há pouco eu estava ali sentado, alimentando expectativas de encontrar uma brecha, tentando reparar erros que não cometi e reconhecer falhas que não pude cometer, os motivos da minha agonia, dentre todos os porquês e por quem sofri. Respirei profundamente.
 "Boa noite", eu disse. Responderam em coro, então o silêncio me deixou prosseguir.
 "Senhores. William..." Olhei para cada um deles. "Nenhum de vocês aqui fora tão rejeitado quanto eu." Um burburinho me fez sentir imprudente, mas mantive a altivez perante alguns furiosos e prossegui. "Rejeitado e tratado indiferentemente por ninguém menos que eu mesmo." Meu orgulho então desapareceu junto às vozes. "Foi há pouco que me reencontrei... A vida tratou de bater forte na minha cara e me perguntar onde eu estava todo esse tempo senão comigo mesmo, vocês compreendem? Durante toda essa nossa discussão infantil sobre rejeição, eu acabei me deixando enganar. Seus choramingos me fizeram acreditar que toda aquela indiferença estava nos outros, mas vocês estavam todos errados." Àquela altura eu já lhes apontava o dedo. "Eu me desperdicei quando a resposta estava bem aqui." Então bati no peito com força - não me lembrava da última vez que havia feito aquilo, mas fazia algum sentido. "Podemos controlar nossas vidas e é isso. Parem de tentar impressionar, ser aceitos ou fazer com que essas pessoas lá fora gostem de vocês. Tudo o que conseguirem na força, por ela será tomado e isso vai doer muito. Sejam um pouco mais gratos consigos mesmos e comecem a dar valor ao que são de verdade, então aquilo que é de vocês será de vocês pelo mérito de quem são. E se em algum momento ousarem duvidar do que são capazes, olhem para tudo o que conquistaram e como conquistaram, pois nada provém dessa farsa. Parem de viver pelos outros, querer ser ou decidir por eles. Deêm prioridade a si mesmos, reencontrem-se e sejam felizes, com ou sem os fulanos que vocês acham que amam. E se amam, não cobrem por isso. Sentimentos não são cheques. Tentem não cometer o erro de esquecerem quem são e não tomarem a frente de suas vidas. E se escolherem perecer, que não sejam em mãos que não as suas."
 Desci do palanque ofegante, banhado em lágrimas desesperadas. Não fui aplaudido. Alguns olhares me fizeram acreditar em alguns momentos que eu não estava curado. Apelei por meus semelhantes não por preoupação, pois não sabia o nome de metade deles. Apelei por conhecer a dor e por causar tão pouca.
 Na maldita tarde chuvosa, eu e eu mesmo voltávamos pra casa.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O Apreço Desprezado

 Consideração é dada. Não pode ser pedida, cobrada, forçada ou imposta. É por isso que, quando alguém falha em retribuir consideração, o dano é tão grande.
 Não estão errados aqueles que não retribuem, afinal, nada lhes foi pedido. Por fim, as únicas lições que se podem tirar dessa infame desigualdade são a experiência do erro em prezar por alguém que não merece, e o receio em ceder tal consideração novamente a quem quer que seja.

Texto originalmente postado por mim,
no facebook.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Solo


Para o dia que lhe apreciei,
guardei um verso na escuridão.
Do encanto súbito à alma
ao perigo leve, distração.
Ardor para o coração.

Eu nada disse, eu nada fiz.
De que me valeria este risco infeliz?
Se teu solo me salvara a vida.

domingo, 30 de junho de 2013

Do Amor, o Indubitável


 Até ontem você ainda estava aqui, ao meu lado. Teríamos um sushi para hoje, uma sessão de cinema para a próxima semana. Muito a ser feito ou apenas nada, o que isso importa? Eu encontraria você, carregada de um mesmo semblante, aquele que sempre muda ao me ver, tornando-se o belo sorriso que você nunca conseguiu evitar.
 Foi preciso beber um pouco na noite passada; não para pensar em você, mas para ter as palavras certas que uma carta como esta costuma exigir. Duas garotas me fizeram lembrar dos caminhos que cruzamos, desejos que realizamos e de como viemos parar aqui.


 Quando sua cabeça começa a girar sem rumo, a única vontade consciente é a de estar com quem se gosta, num lugar aconchegante, longe de tudo e diante do silêncio, para assim alcançar seu ouvido e sussurrar um amor digno de toda a vida, esta que sua ausência tornou pequena e insignificante demais.
 Estive ouvindo, durante toda a madrugada, aquela última música que dediquei a você. Não fui eu que a compus ou gravei, é claro. Você sabe que sou um mero apreciador que não leva vocação para o artistico e que, ainda que eu soubesse do seu gosto por músicos, nunca me dediquei a ser um - o que nunca impediu que gostasse de mim. Muitas foram as canções que ficaram entre a gente. Nunca tivemos uma música para chamar de nossa, mas no início era você minha Ashley, meu sonho na tempestade, meu novo propósito. Apesar de todo o peso daquelas letras, eu adorei ser seu personal Jesus; nosso tainted love jamais será esquecido. Sei que se lembrará de mim pelo soar de certos tons e, hoje principalmente, toda vez que reconhecer que, não importa como me chame, eu seguirei meu caminho te amando da mesma forma.
 Éramos um casal bonito, foi o que ouvi de algumas pessoas. Outros conhecidos não chegaram a testemunhar nossa união, mas sabiam por alguma razão que nos dávamos bem e que combinávamos um com o outro. No entanto, eles ainda são espectadores e por isso não podem saber o quanto foi realmente especial pra gente estar junto. Fácil seria, para qualquer um deles, dizer que podemos nos abandonar e viver, simplesmente. Eles são os donos da teoria, mas fomos nós os detentores da prática lado a lado. Onde quer que estejamos, não importa o quanto eu ou você sejamos encantadores para alguém; eu conheço seus demônios, você os meus e, como ninguém, sabemos lidar com nossa fúria peculiar.
 Hoje não consigo mais chorar - bem, disso você já sabe. O aperto no peito e o nó na garganta insistem, mas não existem mais lágrimas. Queria eu desabar bem na sua frente, só para saber se você juntaria minhas peças e me faria completo de novo, ou apenas me deixaria em pedaços para que eu me recompusesse sozinho e aos poucos. Algumas vezes, cheguei a dizer que me humilhei por você, mas meu derradeiro castigo foi prostrar-me diante do orgulho e deixar que ele me impedisse de seguir adiante.
 Sabe, você nunca irá se tornar um daqueles meus contos. Todos eles proveram de inspirações menores e o tempo que vivi ao seu lado fora grande demais para se limitar a um breve texto. Como antes eu havia lhe dito, minhas estórias possuem início, meio e fim, mas contigo eu nunca soube onde ou quando parar. Talvez você não precise dessas palavras, mas elas precisam sair de mim para que me haja paz.
 Este não é um adeus, de fato. Não é um até logo, pois nossas feridas e suas circunstâncias não permitem que estejamos próximos demais pela manhã. Este é apenas um canto de fúria e esperança que talvez em mim nunca morra, pois não vejo como conceber este fim. Eu nunca consegui duvidar que daria certo.

sábado, 1 de junho de 2013

Canseira

 Cansaço. Sinônimo de fadiga. Palavra simples e objetiva. Nossa mais comum desculpa e mais frequente consequência. Da integridade do corpo aos pormenores da alma, estamos todos exaustos.
 Num dado momento nos escondemos, mantemos o silêncio de nossa inquietude, mas alimentamos o cansaço da repressão. Num outro estamos vulneráveis e explícitos, procurando desesperadamente pelo buraco mais próximo onde possamos nos refugiar. Nossos questionamentos são saudáveis, porém cansativos, mas pior seria não questionar e morrer sem descobrir como é excitante ter alguns inimigos.
  Das ilusões sobre o tempo, a pior delas é pensar que ele passa ora ligeiro, ora vagaroso. Sua única verdade é ser constante e não estar à nossa espera. Ele nos ensina que até mesmo as oportunidades se cansam e não mais aparecem, pois sabem como somos inflexíveis. Assim a família se cansa, os amigos desistem, o trabalho nos deixa exaustos e toda forma de relacionamento acaba por nos sufocar.

 Se não fossemos tão tolos e desconfiados, sofreríamos menos e aprenderíamos mais a cada curva. A pessoa legal, que convidava sua paquera para sair todo fim de semana, irá se cansar da espera, das recusas e das desculpas. Aquela outra, da qual se espera uma ligação, desistirá de aguardar ao telefone, e a recíproca será verdadeira.
 Enquanto reclamamos do cansaço de estarmos à toa, muitos prezam pelo descanso que aqui desperdiçamos. Aquele velho ranzinza e intolerante há de se cansar de sua estupidez, assim como os jovens de hoje se cansam de brincar e decidem levar à sério - complicar e destituir - a simplicidade que é a vida. Todos os acertos e erros lançados em função do arrependimento. O outro lado das escolhas fora há muito engolido pelo tempo e jamais será revelado.

 Certo dia nos cansamos de sermos imaturos, noutro recusamos toda a seriedade. Se olharmos em volta, perceberemos sem dificuldades que o mundo se cansou da gente, e hoje nos expulsa daqui. Cansados de esperar pela felicidade, eis que estamos acomodados demais para corrermos até ela.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Notas de um Fraco Relutante



 Eu queria acreditar no contrário, no hipotético, na mudança pela qual insisti e lutei. Gritando e chorando, fui me perdendo, até desabar por completo na impotência de não conseguir sustentar o que me feria o corpo, mas acalmava a alma. Eu queria duvidar de tudo que me prova que estou certo, mas negar a razão é brincar de viver por se arrepender.
 Não me sinto preparado para isso, ainda que sua falta acabe comigo.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A Ruína de Austin

 Há tempos, uma mesma profecia insistia em assoprar-se contra Austin - a lufada fria do inevitável o fazia arrepiar da espinha até a alma. Quando se tem consciência do fim de tudo que conhece, pode parecer normal querer enlouquecer e sair sem rumo, para encher a cara de bebidas e bolachas. No entanto, pouco importava para ele passar a noite em claro ou dormir para que o amanhã vazio e insólito lhe acordasse. Poucas coisas ainda faziam sentido até ali; e foi a perda dessas pequenas coisas que o ruiu, pouco a pouco, até que nada restasse, além de seu orgulho, algo que ele nunca havia perdido.

 Certa vez, Austin questionou a si mesmo se já havia amado de verdade. Hoje, tal indagação não era mais motivo de debate em sua mente. Sim, ele havia amado - e aquilo o aniquilava. Descobriu o amor quando percebeu estar sendo amado na mesma proporção, e o laço forte que a reciprocidade era capaz de criar. Então seus problemas aumentaram, pois aquele não era mais o seu mundo, mas um universo ligado a outro ser de uma forma tão natural, que meses eram notados como semanas e aquela data especial repetia-se com frequência tal, que era difícil manter a contagem sem fazer uma ou duas continhas.
 Nas montanhas logo à frente, além dos portões de seu templo, formava-se uma horrenda tempestade. Seus olhos a observavam com medo e desesperança; tão abominável era, que arruinaria tudo se caísse sobre si e sobre aquilo que protegia. Mas o que fazer, se Austin também amava as tempestades?
 No dia seguinte, Austin foi pego de surpresa pelo primeiro raio, que fora lançado afora da núvem cinza, cortando o ar diretamente contra seu peito. O terrível impacto lhe tirou o folêgo, o lançou à metros de distância e impediu seu grito de socorro. Aflito em seu coração, Austin pôs-se a escrever nas paredes do templo com a vontade e a fúria que ainda lhe restava, acreditando que suas palavras afastariam outro possível ataque; mas à medida que a pedra em sua mão deslizava e marcava seu desespero, a núvem envolvia o templo em sua massa escura e cruel. Ele encarou os céus cobertos pelas trevas, prostrou-se perplexo junto ao centro do salão e, abraçado aos joelhos, apertou os olhos e chorou de medo.
 Um vento forte derrubou os muros de sua coragem, causando um estrondo tão alto quanto o disparar de cem canhões. Foi quando a chuva caiu sobre si, suas gotas como milhares de farpas, que Austin sofreu como nunca havia sofrido. As causas de sua angústia e dor não estavam claras, até que os clarões dos relâmpagos o revelassem a visão terrível. Estivera testemunhando o embate furioso entre tudo aquilo que mais amava se corroer e se corromper num véu negro de pavor e desgraça.
 Seu espaço fora invadido e destruido; suas verdades postas à prova. Austin nunca pensou que a realidade pudesse mudar de forma tão voraz. A tempestade cruel continuou a cair e a desolar a pequena ilha que era seu mundo. Tragou o que era seu para o abismo e a levou de seu coração para sempre.
 Durante alguns dias, Austin permaneceu abatido no chão duro e úmido, que misturava o frio da água precipitada ao sal de suas lágrimas. Quando sua mente enfim cedeu ao fracasso e acatou a idéia de um recomeço, retomou a força precária de seus braços e pôs-se de pé, com extrema dificuldade. O tempo em que estivera deitado o fez acomodar, mas o estalar de suas articulações lhe deu breve e novo ânimo. Sentiu-se um boneco de lata enferrujado, lutando contra a própria degradação.
 A chuva havia apagado seus escritos nas paredes, mas bastava olhar bem de perto para reconhecer o desespero em tentar salvar seu templo. Ele então caminhou até a beirada destruída que antes era uma entrada e contemplou a imensidão nublada sob seus olhos. Notou que a tempestade continuava a cair, mas estava abaixo de si. Tal descoberta o assustou; não queria mais se molhar e os sons abafados dos trovões abaixo das nuvens espessas ainda o deixavam tenso. Do horizonte surgiu o primeiro raio de um novo sol. O brilho resplandecente repousou sobre seus pés e, num agradável ritmo, ascendeu em seu corpo, conforme a estrela surgia. Ela o aqueceu e o fez descansar em seu abraço aconchegante; mostrou-lhe as ruínas de seu passado e o espaço limpo no qual seria construído seu futuro. Estava tudo bem.

 Apesar de ter sido apenas um sonho; maluco, porém revelador, a cidade inteira parecia diferente no dia seguinte, mas Austin sabia que não se tratava da cidade, rindo ao se dar conta do medo que se impõe ao ter que admitir as mudanças de si mesmo. Atravessou a avenida ouvindo músicas que antes não conhecia. Na monotonia, tentou desvendar os sorrisos que estampavam seu mural de desconhecidos, conversou com estranhos próximos e outros colegas distantes, mas evitou manter alguns vínculos; uma vez que, quando a tempestade voltasse a lhe visitar, não queria ele perder mais ninguém.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O Bramido do Rei

 Contos de uma profunda e misteriosa natureza revelam uma verdade óbvia, mas há muito não observada: que reis serão reis, ainda que os vermes os comam depois que perecerem.
 Sua condição pode não ser mais a mesma e seu corpo pode não ter mais o mesmo vigor. Sua mente pode ter se perdido no vago limbo da morte. Um rei será eternamente rei. Além da derrota, acima do pecado, diante da fúria e do escárnio, em sua eterna soberba, ao saber que nem todos nasceram para governar.
 Esta é uma história simples, como a história de todo rei.

 Estamos numa terra distante. E bem aqui, perto do sol, nasceu um leãozinho. Ele fora amado, orgulhado e muito bem criado por seus pais. Mas sua precoce inocência não lhe fazia reconhecer que, com poucas semanas de vida, todo pequeno leão teria de ser levado ao cume de um grande penhasco preenchido de raios e fumaça. E que do alto daquele penhasco, os pequenos leõezinhos deveriam ser jogados.
 Dessa forma, nunca mais veriam seus pais; e deveriam sobreviver sozinhos depois da queda.
 O leãozinho fora então lançado. Caiu, bateu aqui e ali; assustou-se e gemeu de dor. Sentiu o solo como uma pancada nas costelas. Não pode se levantar depois disso e ali ficou, até que suas forças retornassem.
 Uma selva escura e densa jazia ao fim do penhasco. Uma ampla natureza e uma diversidade incrível de outros animais habitavam ali, e todos respeitavam o pequeno leão. Aqueles semelhantes a ele mantinham-se sempre por perto. Criando um respeito silencioso através de toda a abundante vida da selva.
 Seguindo o que seu pai lhe ensinará lá em cima, o pequeno leão dominou a caça e aprendeu a se alimentar por conta própria. Encontrou abrigo e água, aconchego nos dias frios e proteção contra as chuvas tempestuosas que desciam das nuvens do penhasco periodicamente. Conheceu e tornou-se amigo da floresta e da maioria dos bichos. Amou uma bela leoa e por ela foi capaz de tornar-se um dócil felino. Entregou-se às paixões, desafios e perigos daquele novo mundo, sem muito pensar. Tornou-se rei.

 Tempo depois, enquanto contemplava o sol, imaginou se era aquele o mesmo que brilhara no dia em que nasceu livre. Desejou que seus pais pudessem contemplar a beleza da estrela junto consigo, pois sentia-se mais próximo da grandeza do mundo quando estava sob o sol, e seu coração desejava alcançá-lo.
 Não havia orgulho ou emoção alguma em ficar ali! Uma idéia de grandes propósitos estava prestes a libertá-lo de sua alienação - não podia mais viver pelos outros, acomodado e esperando pela morte.
 O rei se levantou. Queria voltar, mas jamais deveria ter se entregado à turva selva, que lhe coroou, mas ao mesmo tempo lhe fez escravo de uma condição superior. Agora, seus companheiros o desprezavam por brilhar e estava sendo rejeitado pelos mais radicais. O leão encontrou-se de volta no dia em que fora jogado penhasco adentro por seus pais. Qual era o propósito? Céus furiosos o pairavam sobre si.
 Correu desesperadamente, tentando entender os motivos de não poder se rebelar contra seus liderados pelo seu próprio bem. Não queria fazer mal a nenhum deles, queria apenas um desejo realizado por ter nascido rei. No fim da trilha, esteve encurralado por tudo e por todos e, pressionado, tentou argumentar e convecê-los de sua verdade, mas de nada adiantou. Eles o queriam como rei! Viu e ouviu coisas que não suportava testemunhar, até que suas mandibulas tremeram diante das suplicas, e o leão rugiu.
 Sua fúria ecoou por toda a terra. Fez tremer as florestas, perturbou a calmaria dos lagos e causou a erupção dos vulcões. Grande era a surpresa no coração de cada um de seus companheiros. Um a um, eles lentamente se afastaram e deixaram o leão caminhar pela trilha de essências que havia criado.

 Seguiu através da perdição de sua ira, quando percebeu mudar os arredores e tudo se tornar escuro de repente, como se estivesse envolto numa avalanche de cinzas. Suas patas alcançaram uma parede sólida quando sentiu o chão desaparecer; suas garras expostas - num ato instintivo de sobrevivência - cravaram-se sobre as pedras mais dispersas. O leão ergueu sua cabeça e viu seu grandioso pai logo acima, depois de todo aquele tempo.

 Animais de outras espécies pensam que precisam de um líder, por não saberem lidar sozinhos com suas vidas. A maioria dos leões que são lançados no abismo costumam nunca mais retornar. Eles se deixam levar pela grandeza da selva e são fácilmente dominados por ela. Mas você, filho meu, leãozinho ousado, agora já adulto, fez justiça ao que nasceu para ser. 
 Seu equilíbrio fora estabelecido num rugido que alcançou os céus de seu pai. Sua selva agora lhe respeita pelo que escolheu ser.
És caos e calma, o mais nobre rei: és o rei de si mesmo.

sábado, 26 de janeiro de 2013

♪♫ Wind

Akeboshi - Wind (Tradução e Vídeo)

Cultive sua fome antes de idealizar.
Motive sua raiva para fazê-los perceber.
Escalando a montanha, sem nunca voltar;
indo mais além, sem nunca cair.

Meus joelhos ainda tremem, como quando tinha doze anos.
Fugindo da sala de aula pela porta dos fundos.
Um homem me xingou duas vezes, mas eu não dei a mínima.
Esperar é um desperdício para pessoas como eu.

Não tente parecer tão sábio.
Não chore por ter razão.
Não se apegue a mentiras ou medos,
pois você irá odiar a si mesmo no fim.

Você diz: "Sonhos são sonhos...
eu não vou bancar a tola novamente."
Você diz: "Pois eu ainda tenho minha alma!"

Relaxe, querida, seu sangue precisa correr mais lentamente.
Invada sua alma e entenda a si mesma antes de se entristecer.
O reflexo do medo projeta sombras do nada...
sombras do nada.

Você continuará cega se ver uma estrada sinuosa,
pois há sempre um caminho reto para o que você vê.

Não tente parecer tão sábio.
Não chore por ter razão.
Não se apegue a mentiras ou medos,
pois você irá odiar a si mesmo no fim.



domingo, 20 de janeiro de 2013

Insuportabilidade


Mais insuportável a cada dia,
fica cada vez mais difícil me obrigar,

me forçar, me induzir,
persuadir, me prender.


Texto originalmente postado por mim,
no facebook.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Austin e as Promessas do Novo Ano

 Apesar de nunca ter sido bom em matemática, Austin gostava de contar. Contava seus passos na rua, os segundos para o sinal de trânsito abrir e fechar, o número de garotas atraentes que por ele passava. Contava dinheiro e trocados. O tempo de introdução de uma música, seu refrão e o intervalo entre aquela e a próxima faixa. Contava o número de vezes que costuma contar numa mesma hora.
 Fim de ano é temporada ideal para contar. Há dias da última contagem do ano, não lhe implicava o quão importante fosse o compromisso ou sua dedicação para qualquer tarefa. O simbolismo tornou-se tradição, e para o ano desgraçado que lhe caiu aos ombros, Austin ansiava em contar este fim. Esperou e, na noite certa, contou. Transbordava de emoção com a sensação ludibriante de dever cumprido. Cada segundo aumentou sua euforia até o cume das explosões. Nos céus e dentro de si, havia mundos em festa.
 Foi preciso alguns dias até que Austin acordasse de sua ressaca físíca e moral e notasse o quão tola fora sua interpretação das boas novas. Entre muitas felicitações, permitiu que sua mente lhe pregasse uma peça maldosa. Por um momento, pensou ele ainda estar na temporada que se foi. Sua consciência o convenceu deste equivoco e lhe obrigou a repetir como um fantoche as mesmas palavras em ordem: "um novo ano irá chegar e tudo será diferente". Ao despertar, Austin desejava como nunca culpar alguém por seus delírios, mas a culpa era exclusivamente sua. Pobre tolo, enganado pela própria sanidade.


 A data no calendário mudou; o mesmo aconteceu para o mês e é claro, para o ano. Atmosfera sufocante. Minutos de trantorno o fizeram entender que sua transição aconteceu de forma rápida demais, mas que a velocidade dessa transformação não lhe trouxe absolutamente nada. Uma lágrima percorreu seu rosto até tomar volume na parte mais extrema de seu queixo e finalmente desabar na realidade. O que foram feitas das promessas de Austin? Onde estão suas perspectivas e esperanças, todo o plano que traçou durante horas, por dias a fio, sem pensar em outra coisa? Valeu a pena guardar o melhor de si para tão pouco? Nada era tão humilhante.
 Uma das convicções que assimilou durante suas aventuras era a aceitação daquilo que não pode ser mudado. Se o tempo resolveu brincar de mestre e usá-lo como um dado lançado à sorte, que seja essa sua verdade e agora, acima de todas as adversidades, sua arma contra a tristeza e a mola que o impulsionará até o ponto em que caiu. Mais uma vez, Austin decidiu superar sua frustração e persistir.


 Duas auroras se passaram até que sua paz reaparecesse, pequena e frágil. Lhe faltava uma peculiar integridade. Seu corpo não o respondia de acordo com sua vontade; entretanto, sua mente reorganizou depressa as principais idéias. O mundo não há de acabar, não mais! Logo, campos claros de pureza, quase todos limpos das sombras que confundiam seu raciocínio repousavam no silêncio de seu sono.
 Depois de vários auto-exames, concluiu que tudo contribuiu para uma nova concepção das mudanças no tempo. A primeira lição fora aprendida. Um progresso mais que fenômenal. Decidiu esquecer suas promessas e as dos outros, mesmo sabendo que o ritual se repetiria de novo e de novo. Ignorou a data no calendário e, pouco a pouco, arquitetou uma coragem renovada. Parou de contar compulsivamente e marcar hora para tudo. Jogou limpo consigo e com o resto. Não precisava mais de um álibi, apenas de si mesmo e sua nova mentalidade. Austin renasceu de um engano universal.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Virada, Quatro Dias Depois

 O ano virou. Não sei se durante o espumante ou a tequila, mas aconteceu. Viraram copos, taças e garrafas. Do limão abridor de pernas à melancia tóxica. Salve o maracujá! Virou a cabeça de quem tomou, apagou e pensou que jamais retornaria. Quem viu babaca virar fera, assistiu ao troco bem dado e ao fim da noite virar o fim do ano e de muitas outras coisas destinadas a terminar.
 Para toda ação, reação é estar incrivelmente capaz de chegar ao límite depois do erro e das lágrimas.
É amanhecer em grande estilo. Conseguir estar sozinho. Sentir frio e não sentir nada. Saber que o horizonte trêmulo à frente é tão instável quanto as lufadas. Linhas brancas rasgavam o céu pela manhã.
 O rosto de cada uma daquelas estátuas humanas mal iluminadas representavam uma angústia particular em contraste com as realidades da noite anterior. Medo do nada e nenhuma certeza, talvez. Bocas inquietas para conversas paralelas. Pulamos das risadas saudáveis, regadas à boa comida e bebida leve, para os assuntos degradantes. Aprender o valor do silêncio valeu a pena nesses últimos instantes. Não faria sentido expor contradições e argumentos. Há vontades que se vão em delírios repentinos e reflexões dadas ao longo de minutos curtos. Conclui-se que, para um anfitrião, não é fácil ser versátil.
 Duas caravanas nunca couberam num mesmo espaço. Logo me despeço, agradeço presença e digo que não há por quê se desculpar. Espero que voltem - quando eu convidar. Durante o rodeio forçado, preparo discurso e paciência. Tantos demônios para enfrentar num mesmo dia... Confraternização universal chocando-se contra minha amarga discórdia interna. Por fim, cansaço, febre e insônia.
 A manhã seguinte trazia consigo um sorriso cínico marcando o calendário. Maldição. Dores e demais manifestações cruéis traziam à tona verdades revoltantes. Por que corremos tanto atrás do vento se, mesmo no limite das forças, ele se mantém protegido de nós? Nas mãos ou na mente, a preguiça é o mais comum e saboroso crime. A doença criada à partir de nossa diagnose vira pecado por corpo mole. Se hoje não quero levar à sério, hoje não posso levar a sério. Simples. Não hoje. Cortadas sejam as línguas hipócritas que associam desistência à um caráter fraco. Muito material fora desperdiçado e todos esses falsos moralistas, ainda que estivessem abraçados à foice da morte, também desistiriam de morrer.
 Lembre-se daquele horizonte. Mesmo depois de outra noite perdida pelos mesmos motivos, há ânimo em retomar a vida, ainda que o três incomode - ou o que se perdeu nos últimos dois. Talvez nada; e também não haja ganhos até aqui, a não ser o agravante desses infortúnios. Bom saber que não estamos sozinhos; e o que não faríamos sem aqueles que carregam nossa dor como a sua própria. Parte dessa lógica é famíliar e não falha, pois é essência que sobrepõe o sangue. Entretanto, existem ruas que o acolherão melhor que tua casa, e luas opostas para os teus salvadores. Por fim, nenhum requinte deste vocabulário seria capaz de retribuir um carinho sincero em horas precisas. Quem tem alguém, tem motivo para ser feliz.
 Um passeio final pelo terceiro dia até a chegada mais esperada desde o falso presságio maia. O silêncio, o escuro e a ausência são companheiros indispensáveis àqueles que realmente amam sua vida e seu espaço. Há tempos não estivera reunido comigo mesmo para descarregar certas infelicidades e reconstruir motivação. Não há nada mais puro que o sorriso de um homem solitário. Ele não precisa mostrar aos outros sua satisfação. Está bem consigo. Houve uma saudação alegre até os preparativos do descanso.
 O desconforto fora baleado pela surpreendente ação de alguém que não deixa de amar, mas ama à sua própria maneira. Bom café ao paladar acompanhando mais anagésicos. Dia de reorganizar e aguardar um sinal. Reprimir anseios fúteis e exprimir vontades absurdas. Dormir com uma gata e acordar arranhado. Ficar abobado. Sentir arder e ver a dor como mais doce triunfo de prazer. Sadomasoquismo virou ritmo.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

O Fim das Coisas


Começa com a decepção,
o ganho da paciência, o perdão,
o desgaste dessa mesma paciência,
então a fadiga, a rotina,
o cansaço, a perda da calma,
e quando você menos espera,
perde a vontade, o prazer,
a motivação e a razão.

É assim que acabam as coisas.




Texto originalmente postado por mim,
no facebook.

sábado, 17 de novembro de 2012

O Chamado do Ser

Seja você acima de tudo,
sua vontade acima do mundo.
Dos seus pés sejam a partida
da sua mente seja a guia.
Seja o autêntico dono de si.

Seja nada menos que o máximo.
Exceda o limite da capacidade de ser.
Seja super com poderes humanos,
busque na humanidade seu poder.

Seja sem medo do silêncio;
e que venham de você suas trevas,
para que seja você sua luz.

Seja exato por métodos e equações.
Seja sutil pela prosa e poesia.
Seja dos detalhes no fantoche do corpo,
à sujeira dos rabiscos da alma.
Seja insuportávelmente você.
Seja aquele, tão único e belo,
que jamais se envergonha de ser.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Austin e o Demônio da Verdade

 Um último grito, logo um suspiro e acordou. Nada havia mudado. Aqueles pesadelos o assustavam, mas por uma estranha irônia, Austin queria que fossem verdade. Queria que, ainda que por um único dia, as dores não fossem tão fortes e sua voz fosse tão alta como naquelas ilusões que se despedaçavam.
 Não havia muitas opções para o café da manhã. Não havia fome em Austin. Talvez sua necessidade pudesse ser suprida com doses fortes de xarope e analgésicos - sua nova rotina era caótica. Àquela altura, praticamente todas as pessoas o consideravam louco por sua condição deplorável. Seu cabelo havia crescido a ponto de lhe tapar os olhos, mas ainda assim, era o único que conseguia enxergar alguma coisa.
 Austin não queria ser acordado, mas queria - ainda que não precisasse - ser bem tratado e mimado. Carecia de atenção e um ouvido paciente que lhe aguentasse a lamúria, pois não achava justo o modo como Deus presenteava alguns de seus filhos, enquanto os outros bastardos eram deixados para trás, condenados pela descrença, a desgraça de sua existência ou pelo puro desânimo em adorá-lo.
 Conforme afrontas cresciam, Austin apenas absorvia o menos desinteressante. Não precisava de explicações inúteis para problemas pequenos e, afinal, por que desperdiçar vocabulário numa discução que sairia do zero e nele terminaria? Seu pedido por silêncio era quase humilhante. Lembrou-se daquela festa, onde sua mente mandou que se calasse. Respirou fundo, na tentativa de não brigar com a própria convicção, pois suas emendas haviam se acumulado e estariam se tornando cólera para logo explodir. Maldita mente, por que mandou que eu me calasse? Pensava consigo. De sua boca saiam argumentações absurdas sobre a filosofia de suas tristesas, mas tolo era ele, pensando que alguém iria lhe ouvir.


 Antes do cair da noite, Austin preparou bom-humor e entusiasmo adequados para sarar um dia de discórdias. Partiu consciênte e decidido a deixar seus problemas encostados num canto para se deliciar com sua fuga do pesadelo. Os espaços em branco representavam sua paz de espírito e se mantiveram firmes por  um bom tempo, o suficiente para tomar decisões básicas, mas foi no amplo e repentino escuro que a verdade se manifestou. Como sempre, nunca inteira e, na maioria das vezes, despedaçada, na necessidade de ser moldada e por fim revelada, verdades são como enigmas da morte, ao descobrir é tarde demais.


 Demônios voltaram a lhe atormentar; seus pensamentos cada vez mais confusos; sua paz em branco tornou-se um campo de batalha xadrez onde vencer era apenas parte do problema. Olhe para ela Austin! O apelo da mente fora bastante claro. Austin a trouxe para perto e ali esteve mais calmo. Sabendo que o infinito de seus tormentos voltaria, ignorou o mundo e suas instáveis certezas. Tomou esta ignorância como arma diante dos próximos capítulos de sua infâmia, impedindo um grito há muito preso na garganta.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Caravana

 Era tarde para o almoço quando um questionamento simples e ingênuo - como perguntar as horas à um estranho - tornou-se a conversa de uma vida entre eu e todo aquele infinito. Poderia ter sido condenado à loucura por tornar caótico um momento de tanta inocência, e ainda que segundos fossem horas dentro daquela estranha percepção, existem coisas que nunca mais estarão no mesmo encaixe.
 Na minha precipitada conclusão, a mutação do tempo fora uma das mais belas maravilhas encontrads no universo. Ora, seria um desafio que nenhum miserável não notasse a diferença do ausente, do que não estava mais ali pela manhã, da explosiva consciência de tudo o que é e que um dia também morrerá.

 Bem-vindo às manhãs mágicas da minha caravana. Não estranhe, pode encontrar viajantes que alimentam o hábito de olhar para o horizonte às suas costas e zombar do passado, mas os babacas não se cansam de repetir os mesmos erros e dificilmente aprendem. Ignorância já os tomou como brinquedo. Gosto de apontar dedos podres contra particulares desgostos, portanto acostume-se ou caia fora!
 Olhe bem. O normal de ontem é hoje uma aberração ao olhos modernos e não mais considera o presente; tornou-se uma marca carregada de vergonha. Deveríamos nos orgulhar dos dias passados, mas logo à tardinha alteramos a direção sem perceber, seguimos instintos desconhecidos até descobrirmos as novas formas de prazer e insistimos no teor caótico das próximas horas. Sabemos reconhecer nossa estupidez, mas fomos criados dentro do propósito ridículo da hipocrisia. A estrada da infância nos ensinou que nossos trajes devem manter a elegância durante cada parada e nenhum fio deve ousar desafiar a maldita tradição. Nossas opiniões mais sinceras foram proibidas, trancafiadas numa caixa e enviadas ao futuro próximo - a estação final do engano, descoberta da falsa liberdade - e não importa o nome que se dê a isso, somente quando descobrimos o quanto fomos reclusos é que conseguimos nos expor.
 Reina aqui a liberdade, - exclusiva minha - nessa pequena caravana existe pouco preconceito e nenhuma doença que destrua histórias de amor. Tenho cuidado para que nunca aconteça tragédias, por isso esteja como quiser perto de mim, eu não me importo, o problema é todo seu. Antes de aumentarmos um pouco a velocidade, quero que aprenda a dizer adeus a algumas das suas manias chatas e saiba que, nem sempre velhas paixões se reencontram, algumas existiram apenas na ilusão da sua cabeça.
 A caravana tem seus segredos - isso é meio polêmico, admito - e toma rumos misteriosos. Aprecia doses de honestidade, possui um peculiar prazer no desconhecido, mas prefere aquilo que conhece por inteiro. Na prática, o conhecido acaba sendo monótono demais para os fracos de coração.
 Alguns gostam de perfume, outros de ar podre, é compreensível, mas nem todos merecem compartilhar dos infortúnios das nossas paixões. Logo seremos tragados pelo vento forte, surdados pelo baixo zumbido e veremos cactos engraçados, que mais parecem andarilhos perambulando pelo nosso deserto.
 Não vamos descer hoje, pois quero que vejam tudo daqui. Se o mundo for mesmo acabar, como dizem, estaremos numa festa vermelha diabólica, curtindo álcool e alguma putaria, no mesmo inferno quente onde tanto queriamos morar. Não resista, sua má conduta o arrastará de um jeito ou de outro. Diga a verdade e evite ser envergonhado na frente de todos os seus amiguinhos idiotas mais tarde. Ninguém estará a salvo, e será lindo dançar com nossos próprios demônios na última noite. Entretanto, aqueles que anunciaram o fim certamente não estavam tão doidos como nós, não tinham o nosso humor e nem falavam a nossa lingua. Somos a elite desse deserto, gritamos contra o eco pelo prazer de ouvir nossa própria voz nos chamar de volta. Somos apaixonados demais pelo mundo e egoístas demais para dividí-lo.
 O cair da tarde engana os olhos. Estaremos sentados ou debruçados uns nos outros, testemunhando o abandono do sol enquanto comemos alguma coisa. Ele deve iluminar os perdidos que estão do outro lado enquanto nós continuaremos nossa jornada pelas trevas da noite. Se ao menos aqueles que me criaram pudessem ver o que eu vejo - felizes não estariam, mas com sorte pensariam em mim como algo diferente do que tentaram construir. Opiniões ou apenas títulos, sei que todos somos frágeis à essas drogas.
 O escuro será a parte mais breve. O que você pensa ser uma longa noite não passa de alucinações com globulos iluminados flutuando no céu e um veneno, um maldito sonífero. Chamo essa sensação estranha de "quase morte", pois não morreremos tão fácil, apesar de ser esta a nossa única certeza.
 O horizonte irá misturar seus tons azuis ao brilho ascendente da manhã pouco antes do sol surgir de novo. Discretamente, alguns milhões de raios estarão sobre as nossas cabeças. A caravana vai estar parada, vamos nos empuleirar no teto e tentar algum lugar mais alto. Sabe amigos, eu não queria ver o esplendor da nova era, eu queria ser visto por ela. Acho que nenhum intrometido terá a ousadia de interromper nosso sagrado momento junto ao recomeço. Haverá um novo céu sobre nós e um mundo brilhante a ser explorado. Retornaremos aos nossos postos, e logo de volta às entranhas de nossa estrada.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

VBV - Vestida de Batom Vermelho

 Saudações amigos!
 Conforme o ano avança, os novos projetos estão ganhando vida, caros amigos. Mas não é o meu projeto principal que vim divulgar por agora. Este - não menos importante - é uma grandiosa empreitada criada pelo meu amigo e também escritor Arthur Fortes - o Muringa, para os leitores mais chegados.
 O VBV - Vestida de Batom Vermelho reúne, com criatividade e emoção, as experiências de diversos escritores com mulheres de todos os tipos. O projeto tem foco na beleza ímpar presente em cada mulher, dentre todas as particularidades e pontos de vista do narrador. Um projeto ousado, feito para que se torne um maravilhoso livro de contos e crônicas, que certamente encantará o ego do publico feminino.

Clique na imagem para visitar o blog!

domingo, 29 de janeiro de 2012

♪♫ Born To Be Wasted

009 Sound System - Born To Be Wasted (Tradução e Vídeo)

Na batida, vai se chocar, vai se partir.
Este carro segue rápido, vai acelerar.
Esta noite não vai durar, então vamos manter o controle.
Nós nascemos para morrer.
Oh, as pedras não vão parar, então vamos destruí-las.
As batidas vão morrer, você pode se enganar.
Sua mente está em chamas, mas não é o bastante.
Nós nascemos para morrer.

Querida, diga bem alto,
você sabia que acabaria assim.
Não vale a pena viver,
se você não pode se queixar.
Oh, as pedras não vão parar, então vamos destruí-las.
As batidas vão morrer, você pode se enganar.
Sua mente está em chamas, mas não é o bastante.
Nós nascemos para morrer.
Esta arma disparando é só um aviso.
Este avião está caindo num ataque terrorista.
Esta noite vai terminar como um missíl sobre nós.
Nós nascemos para morrer.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Não é Um "Adeus"

 Caros leitores, meu tempo é escasso e não há - de verdade - muito a ser dito. Meu recado será direto e honesto, longe de minha peculiar grosseria, mas na ênfase da boa e velha sinceridade.
 O TRAPO é fantástico! Em um dos primeiros textos, contei um pouco sobre o carma acerca de trabalhos não terminados, mas hoje me sinto realizado por saber que este blog está aqui, e aqui permanecerá! Muitos amigos gostam de navegar pelas páginas do TRAPO e devanearem um pouco em tudo que compôs quase dois anos de blog. Mais um vez gostaria de agradecê-los: amigos e fiéis seguidores.
 Sim, o TRAPO estará inativo por tempo indeterminado. Você poderá acessar quando quiser e participar de todas es extensões do blog, desde os comentários nas postagens às comunidades do orkut e o nosso caderno de perguntas. Possivelmente, existirão novos canais do TRAPO na internet, mas não divulgarei nenhum desses projetos por agora. O verdadeiro projeto por traz de tudo isso é o maior e o mais precioso de uma vida de sonhos e vontades domadas pelo excesso de informação.
 O primeiro livro de Sérgio Bitencourt vai sair, amigos, acreditem! Durante todo o ano, foram muitas as tentativas, entretanto percebi que não sou apto a dividir minha habilidade em dois - não ainda. Para que haja dedicação e tempo disponível às outras tarefas que o mundo e a sociedade impõem, um sacrifício é preciso, e posso dizer, honestamente, que não me sinto, de fato, sacrificado, pois o trabalho realizado no TRAPO vive com seus leitores e continuará fluindo nas veias da internet, circulando por aí...
 Os detalhes da obra não serão divulgados por hora. Tudo ficará para o ano que vem, e é possível também que o TRAPO venha a se transformar na principal fonte de divulgação deste projeto, algo que me impulsiona de forma violenta, num incrível êxtase! Aqueles que me conhecem, sabem de minha determinação e como me entrego àquilo que me disponho a fazer; a enfrentar.
 Este será o desafio de 2012: um livro! O primeiro de muitos, e por isso não é um adeus, e nunca será...
 Melhor do que nunca, ainda mais inspirado a criar e revolucionar a mente daqueles que apreciam minha escrita, desejo de coração os melhores votos aos meus grandes amigos e a todos que me apoiaram na caminhada, e também aos haters que tornaram o TRAPO polêmico e famoso, por assim dizer.
 Enfim, à todos um 2012 cheio de boas expectativas e grandes realizações.

Um abraço.